quarta-feira, 16 de abril de 2014

DIGITÁLIA

Não sobraram montanhas intactas
Onde sábios saibam destilar
Entre estalactites
Tics místicos
E suas sábias barbas de silêncio
A baba abstrata da sabedoria
Então sorria
Você está sendo filmado
Pelo elevador
Pelo shopping
Pelo celular da adolescente ao lado
Pelo Tio Sam
Pela sede da rede em edificar catedrais de mensagens
Mosaicos de futilidade urgente
Na pressa em saltar de ponta-cabeça da notoriedade ao esquecimento
Um solo ágil de Charlie Parker entre milênios chineses de agulhas de acupuntura e teses anarquistas de como fabricar coquetéis explosivos que não deixam ressaca no dia seguinte, separam-me do mais novo “o cara” de alguma das miríades de cenas alternativas que recicla emoções supersaturadas de canções de décadas passadas articuladas com um espírito blasé de coletividade digital decomposto em ruas de selvagem quietude em chamas de aglutinação de qualquer coisa que não consigo absorver de dentro de minhas quatro décadas e um muito mais de perplexidade sobre um planeta terra sempre à espera do fim do mundo...
Melhor fazer uma pausa para o café
Antes de ler nas linhas do tempo
Fragmentos de fascismo e fascinação
Que escapam de nossas mentes incautas
Quando apenas tentamos ser... nós mesmos
Ou seja
Atores
Avatares
Em altares virtuais
Orando ao nosso próprio ego, por uma tal de felicidade, cujo programa, ao menos, ao que consta pela última pesquisa feita no google, ainda não se encontra disponível no baixaki...
(Edson Leão)

domingo, 30 de março de 2014

NOTURNO

Deixo a noite esticada lá fora
E tento dormir
Porque recolher a noite?
Subir numa escada
Desatarraxar a lua?
Chamar a polícia
Calar os bichos?
Deito nesse leito de sons e breu
Tessitura de carros
Contracanto de cães
Partitura atonal
Minimal
Aleatória
Animal
Humanimal...
De gritos
Silêncios
Gemidos
E ventos
De grilos
E gozos
Na boca do céu
No beijo do sono
No teto do crânio
Girando estilhaços
De cacos de tempo...
Latejando espasmos
No espaço
“Fronteira final”...
Bons sonhos
Bons ventos
A quem deixa que a noite
Traga sua banda
Pra tocar um rock
E deita a cabeça
Na carne macia
Negra e tranqüila
Tatuada de estrelas
Da Via Láctea...
Os latidos
As sombras
E o frio das flores
Cheiram a ausência
As noites são sempre noites
Voz rouca do tempo
A sussurrar lembranças
Daquela madrugada que não veio
Daquelas que ficaram
Das “quem sabe se virão”...
Da imprecisão do dia rindo
De sapato na mão na calçada
Com os primeiros raios de sol
Que espreitam os pomares do eterno
E a deselegância moderna
Da silueta carrancuda dos prédios...
Beijo a neblina que me enxuga o rosto
O orvalho é uma sonata de Chopin
(Edson Leão)

PRECE



Quero minha vida
Um domingo de sol
Nada por obrigação
Disposição pra tudo
Vontade de pé na estrada
Paixão de virar o mundo
Desejo de felicidade
Pra além do meu umbigo
Pra fora de todo muro
No gramado da terra
Nas ruas, no meu quintal
No momento que é eterno
Levitando um rock’n’roll
Puxando um carnaval
Solando gols de placa
Sambando na inspiração
Sem ter que pisar na grama
Podendo deitar e rolar
Sem ter que pisar na bola
Nem comigo
Nem com ninguém
Que a vida possa ser
Assim, apenas assim
Pelos outros dias da semana
Do princípio até o sim
E no que não for,
Que por fim, seja também
Certo por linhas tortas
Pelos tempos e não-tempos
Além...
(Edson Leão)
Obs.: A vontade é que fosse lido como um disco dos Novos Baianos...

TRATADO DE PSICOLOGIA INFORMAL

Respeito Freud
Prefiro Jung
Mas pra iluminar
O que esconde
O lado escuro da lua
Prefiro ainda
Um Pink Floyd
ligado na melhor altura...
(Edson Leão)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

MALANDRAGEM

Nesse mundo submundo
Que Dom Sigismundo
Indique um rumo
Ou cada qual que se arrume
Sem chorume nem vela
Com o lixo, sem o luxo
Ou quem sabe com o bicho
E sem fita amarela

A bandidagem tá na tela
Falando antes da novela
Tá de gravata e salto alto
Tá na planície e no planalto
Televisiona dita, edita
Tem carta branca com a polícia
E eu de otário pago o pato

Tem justiceiro que é bandido
Tem escolhido que é safado
Pagar de santo é muito fácil
Dizer que é dízimo a propina,
Guardar dinheiro na piscina
Baixar poeira de helicóptero (ô palavra difícil)
E aqui embaixo eu pago o pato

É sacanagem, é malandragem
E o mar não tá mais pra viagem
Não tá pra virgem, nem vigia
E a heresia é a maresia
Que sai de dentro das cabeças
Que sai da idéia de quem pensa
E quer virar de vez a mesa
Obs.:
(Mensagem psicográfica que, supeita-se, tenha sido enviada por Raul Seixas ou por alguém tentando se passar por ele. Para ser cantado em ritmo e harmonia de rock’n’roll com entonação de cantador nordestino para ficar mais “seixiana”)
Médium Receptor imperfeito da mensagem, Edson Leão

DICA FARMACÊUTICA

Tropeçar no momento
E pisar nos pés da valsa
Com neosaldina não passa

(Edson Leão)

DESPERTAR

(De volta ao país de OZ)
Sol na vidraça
Estilhaça o sono
Ao som do cão
Que ladra
E rouba
O último sonho
Ao outro
Que sou
Ao acordar...
Sobra o novo dia
Estranho filme
Rolando
Na escuridão do crânio
Ao terceiro rugido
Do constrangido
Leão da Metro.
Hora de ir pra rua...
Bem vindo
Enfim
Ao lado escuro da lua...
(Edson Leão)
Obs.:
E o cão me diz de cor
"Never more...
Never more..."