sexta-feira, 11 de julho de 2014

HOMERO, O BUROCRATA

Assinava documentos
Como quem escreve sonetos
Ao menos acreditava nisso
Do alto do escritório
Vendo pela janela
Entre um papel e outro
O sol desenhar a tarde
Como sua adiada poesia
Sonhava alguns segundos
Aquele sol
Visto da varanda
Da casa de praia comprada
No quando da aposentadoria
Um dia um deus sem assunto
Roubou-lhe a visão e a poesia.
Tempos depois
Como o trânsito na avenida
Lá embaixo
Que vez em quando observava
Entre a fumaça do café e o cigarro
O sangue lhe engasgou nas artérias
Ficou para história o poeta
Que nunca deu ao mundo uma poesia.
(Edson Leão)



ORFEU, O SERESTEIRO

Compunha marchas-rancho
Saudosas como cadeiras de palhinha
A velha vitrola
E os discos de Orlando Silva
Leitor ocultista
Compôs um samba-canção
Que acreditava
Ressuscitaria os amigos mortos
E aquela paixão de juventude
Mas o coração tropeçou
Numa rima da terceira estrofe
Momentos antes do refrão
Em tempo hábil para os herdeiros
Poderem aceitar a proposta
Oferecida pela construtora
Que em menos de um mês
Pôs no chão
As memórias
E os sonhos
Que habitavam seu velho sobrado...

(Edson Leão)

DEMIURGO, O ANDARILHO

Como andarilho
Aprendeu que a rota do mundo se alterava
Se ao acordar na calçada
Decidia caminhar para esse ou aquele ponto cardeal
Num descuido atirou uma binga de cigarro
Com a brasa ainda acesa no rio
Foi assim que veio a grande seca
E a onda de calor
Que os bispos chamaram apocalipse
Os jornais jamais saberiam
O peso
Que os furos de seus sapatos cabiam
Apenas sua família
Quando batia
Até ele querer fugir dessa vida
E dizia
“Esse menino parece que tem o diabo nas tripa”
O engraçado é que ele só sentia
Era a mesma velha barriga vazia...

(Edson Leão)

SÍSIFO, O SAMBA-CANÇÃO

Nunca carregava guarda-chuvas
Assim provocava inundações
E lá iam de novo sonhos
E escombros de sentimentos
Na enxurrada
Sambando
Ladeira abaixo...

(Edson Leão)

sexta-feira, 30 de maio de 2014

MISTÉRIO

Estranho óleo
Cai nas engrenagens do mundo
A ele chamam noite
Escorre sobre prédios
Mancha os rostos 
As carnes
A sede
A fome
O desejo...
Unta
Besunta
Azeita
Até a lua se curva
E vem buscar as marés
Nossas entranhas virando lobos
Lobas
Labirintos
De hormônios
Sentimento
Sonho...
Chamam noite
A mordida a escorrer da polpa
Do misterioso negro fruto do cosmos
Essa criança sagrada
Pressentindo a luz
Que nos contorcemos tentando inventar
Buscando em outros olhos
A vaga emanação das estrelas...
(Edson Leão)

ASTROLOGIA

elemento ar
pode ser vento
desdobrar furacões
ou em silêncio
evaporar...
(Edson Leão)

TERRORISMO

Testamento: 
Entrego meu cérebro
sem dor
e ao molho tártaro
à a(tara)antada fome da ciência
contendo à contento
à torto e à esquerdo
um tanto de dor
e de divertimento
enfim, em secreto
tudo que celebro
coquetel molotov
de irracionalidade e poesia
dispositivo programado
à prova de pavlov
palmolive ou detergentes
elaborados para lavagens tenebrais
regado a azeite de oliva
por certo, nem tão livre
quanto em vida o queria
mas pronto a ser detonado
ao mínimo toque
no nervo da inspiração
ou de outra piração...
ou não...
tenho dito...
mas...
por hora...
vamos à vida então
e os doutores
que aguarderm
deve demorar a explosão...
(Edson Ferenzini - para poupar a rima em "ão")